
Os
escritores
norte-americanos Phillip
Yancey, Ronald Sider,
Jim Wallis e Rob Bell
vêm afirmando que o
movimento evangélico já
não consegue responder
satisfatoriamente aos
desafios deste milênio.
É verdade. Na Europa
pós-cristã, ele
permanece periférico;
nos Estados Unidos, foi
absorvido pela religião
civil do “Destino
Manifesto”, que
considera o país eleito
e abençoado por Deus; na
América Latina seu
crescimento numérico o
afasta do protestantismo
clássico enquanto o
condena a tornar-se uma
religião popular sem
práxis transformadora.
Considerando a obra de
Thomas Kuhn sobre
mudanças de paradigmas,
A Estrutura das
Revoluções Científicas,
dá para perceber como o
movimento evangélico se
esvazia. Para Kuhn, um
paradigma enfraquece
quando se torna incapaz
de explicar algum
fenômeno científico,
mesmo que já tenha
servido para nortear a
pesquisa. Os paradigmas,
depois de
convincentemente
desafiados por novas
evidências, precisam
sofrer mudanças.
Na tese de Kuhn,
enquanto um paradigma se
mostrar eficiente, as
pesquisas e as
descobertas são graduais
e cumulativas. Porém, no
instante em que as
inovações deixam de ser
absorvidas, as rupturas
passam a ser bruscas;
surgem pessoas que se
atrevem a desafiar tanto
os antigos conceitos
quanto a noção do
progresso gradual e
constante do saber em
direção à verdade.
Muito tem sido publicado
procurando um diálogo da
teologia com a
historiografia,
psicologia, física
quântica, sociologia,
antropologia e até
arqueologia; novos
pensadores evangélicos
se revezam na crítica a
alguns pressupostos.
Segundo Kuhn, todos eles
pagarão um alto preço
por essa aventura;
seguirão Galileu, que
quase morreu quando
descobriu que Júpiter
tinha luas. Por derrubar
a astronomia ptolomaica,
desacreditou também a
teologia que acreditava
em um universo
geocêntrico. A igreja
defendeu seus dogmas e
Galileu, para salvar a
pele, precisou se
retratar.
Os evangélicos tentam
responder à atual crise
de várias maneiras:
Com a resposta
piedosa. Ressoam
apelos de que os crentes
precisam voltar a orar.
Li no quadro de aviso de
uma igreja uma
convocação para que os
crentes entrassem numa
“maratona” de oração. O
pastor queria promover
um avivamento espiritual
colocando sua
congregação de joelhos.
Contudo, vale perguntar
se é preciso mais
intercessão ou se não é
hora de repensar o
conteúdo das orações.
Convivi entre os
pentecostais por anos e
posso afirmar, sem medo
de errar, que
multiplicar os “círculos
de oração” não resolverá
o problema.
Com a resposta
legalista.
Avivalistas acusam, com
o dedo em riste, que “o
mundo entrou na igreja”.
Alguns acham que
conseguirão anular o
declínio ético propondo
que “endureçamos” nos
usos e costumes. Os
jovens, principalmente,
deveriam se arrepender
do estilo de vida
“carnal” que adotaram.
Eles esquecem que o
legalismo não tem valor
nenhum contra a
sensualidade e que impor
tantas exigências acaba
gerando mais
hipocrisia.
Com a resposta
ortodoxa. Já
escutei líderes
evangélicos afirmarem
que carecemos de uma
nova Reforma. Alguns
buscam reavivar
liturgias e paramentos
de trezentos anos atrás.
Os evangélicos realmente
se distanciaram de
várias doutrinas do
protestantismo do século
16. Contudo, seria
ilusão pensar que um
novo Lutero resgatará o
movimento. Em um mundo
globalizado, com tanta
complexidade cultural,
uma nova Reforma,
semelhante àquela,
jamais se repetirá.
Com a resposta
organizacional.
Principalmente os
estadunidenses tentam
manter suas igrejas pelo
viés da administração
eclesiástica. Eles
acreditam que a fé
voltará a ser relevante
com uma liturgia mais
“amigável”, com uma
mensagem mais
contemporânea, com bons
estacionamentos e redes
ministeriais.
Diante da crise,
acredito ser preciso
fazer um novo “dever de
casa”; admitir que urge
começar a pensar fora da
antiga caixa e ter
coragem de enfrentar
novos desafios.
Para essa tarefa,
proponho que a graça
volte a ser pedra
principal da
espiritualidade cristã e
que o exercício
teológico leve, até as
últimas conseqüências, o
amor gratuito de Deus;
que se enfatize que ele
não faz acepção de
pessoas; que se reverta
a tendência de
transformar as igrejas
em “bingos”, onde muitos
buscam milagre e poucos
recebem bênção. Por
último, é preciso
aprender a pensar
globalmente. Não é
possível continuar
apostando que Deus
prospera os crentes que
gostam de supérfluos e
desprezar os miseráveis
dos campos de refugiados
africanos e das
periferias urbanas
brasileiras.
Junto com o
enfraquecimento de um
paradigma existem tanto
o desafio para que
saiamos do quadrado e
demos um salto
qualitativo, como a
possibilidade de nos
condenarmos ao
anacronismo. A decisão
está em nossas mãos.
Soli Deo Gloria.
•
Ricardo Gondim
é pastor da Assembléia
de Deus Betesda no
Brasil e mora em São
Paulo. É autor de, entre
outros,
O
Que os Evangélicos (Não)
Falam e
Eu
Creio, mas Tenho Dúvidas,
lançamento da Editora
Ultimato.
www.ricardogondim.com.br