Foi este título de um artigo do psicólogo
Alberto Lima, publicado há muitos anos, que
chamou minha atenção sobre esta realidade.
Tenho em mente um desabafo de uma amiga,
esposa de um pastor de renome: "Demorei
muitos anos para descobrir que eu não era
apenas a sombra dele, mas que tinha luz
própria!". Lembro de outra amiga, casada com
um artista famoso, que luta até hoje para
sobreviver ao lado de um ego tão inflado. O
que dizer do provérbio popular: "Atrás de
todo grande homem, existe uma grande
mulher!". De fato, parece que muitos homens
desenvolvem um brilho tão ofuscante que não
sobra lugar ao seu lado, apenas papéis
subalternos de bajuladores e serviçais. São
pessoas empreendedoras, carismáticas,
sedutoras que conseguem arrebanhar
admiradores e vão aos poucos desenvolvendo
um personagem idealizado que enfatiza as
qualidades e camufla as fraquezas. Assim
como, no mito de Narciso, a ninfa Eco é
condenada a repetir "maravilhoso,
maravilhoso!", este homem não aceita
críticas e questionamentos.
Mas o seu sucesso na vida pública não se
sustenta na vida privada, na intimidade do
lar. Este homem educado, sociável,
inteligente, brilhante, reserva suas
atenções para as pessoas que o admiram. Em
casa, porém, mostra-se mal-humorado, calado,
pouco disponível, distante, sempre cansado e
irritado. Não é companheiro, joga-se na
frente da televisão ou enfia-se num jornal,
responde às perguntas de forma evasiva, não
convida a mulher para sair e a acompanha de
má vontade nos compromissos pessoais. Sua
mulher e filhos percebem esta ambigüidade e
ficam num grande dilema. A mulher pode se
contentar em ser invejada pelas amigas e
esconder cuidadosamente a sombra de seu
companheiro. Muitas se rendem à imagem
pública e passam a desempenhar papéis
coadjuvantes, vivendo um faz de conta onde
não há espaço para descobrirem seu valor
pessoal. Ao negar suas limitações, este
homem de sucesso acaba projetando-as nas
pessoas mais próximas que ficam a mercê
desta imagem distorcida e não conseguem
enxergar seu próprio potencial. Outros,
principalmente na adolescência dos filhos ou
na crise de meia idade da mulher, tentam
virar a mesa e denunciar esta farsa. A
mulher entra em depressão ou passa a ser
crítica e os filhos podem apresentar
sintomas físicos, buscar refúgio em drogas
ou adotar um comportamento rebelde.
Esta pode ser a grande oportunidade de tirar
as máscaras e abrir espaço para uma verdade
libertadora para todos. A mulher que se
anulou para que ele brilhe pode descobrir
sua própria contribuição na luz que ele
irradia. Geralmente ela tem qualidades
consistentes de hospitalidade, serviço e
reflexão. É uma pessoa profunda, que sabe
ouvir e encorajar os outros. Além de
reconhecer suas qualidades, ela precisa
aprender a receber e precisa se dar o
direito de colocar limites. Ele precisa
admitir sua fragilidade, sua
superficialidade, sua insegurança para
descobrir que pode ser amado apesar delas. A
relação se fortalece nesta nova parceria
onde cada um percebe a contribuição do outro
e a possibilidade de fertilizar-se
mutuamente. Ele desce do seu pedestal e
encontra um acolhimento nesta mulher que
pode finalmente descobrir o seu lugar ao seu
lado. Os filhos conquistam o direito de
serem reconhecidos e desenvolver suas
características pessoais num ambiente de
respeito das diferenças e de encorajamento.
Em vez de delegar a responsabilidade pela
sua vida ao marido e limitar-se a sofrer
calada ou aprimorar o papel de vítima, a
mulher precisa resgatar em Deus a sua
verdadeira identidade de filha amada,
capacitada pelo Espírito e chamada a uma
vocação pessoal e intransferível. O homem
precisa ter a humildade de assumir sua
sombra e abrir mão do reconhecimento público
para descobrir-se acolhido por Deus
incondicionalmente, não pelos seus méritos,
mas apesar de seus pecados, como Pedro foi
acolhido por Cristo após tê-lo traído.
Quando experimentamos esta aceitação na hora
que nos sentimos mais inadequados, somos
libertos da compulsão de seduzir para sermos
amados e podemos então ter a coragem de nos
mostrar como somos, com toda a nossa
humanidade.
Isabelle Ludovico da Silva, psicóloga com
especialização em Terapia Familiar
Sistêmica. isabelle@ludovicosilva.com.br
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